Edital do CACD 2020: novidades e análise completa

Luigi Bonafé • Atualizado em 13 ago 2020 às 8h01Publicado em 30 jun 2020 às 4h07

Em estado de negação histérica, o Itamaraty do olavista Ernesto Araujo acaba de publicar o Edital do Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD) 2020, com aplicação presencial da primeira prova no dia 30 de agosto de 2020, como se não houvesse pandemia.

[ATUALIZAÇÃO em 13/08/2020: por recomendação do MPF, o cronograma de aplicação das provas do CACD 2020 foi suspenso, sem divulgação imediata de novas datas. Leia mais]

Achou absurdo? Então segura essa: tem regra prevendo o direito de IRBr e IADES decidirem pelo deslocamento do local de aplicação de prova para outra cidade e até mesmo para outro estado, caso a suspensão de alguma fase do certame em âmbito municipal ou estadual comprometa o “cronograma de atividades do concurso”.

De resto, muitas das mudanças negativas introduzidas no CACD 2019 começaram a ser desfeitas: aumentou a quantidade de convocados para a 2ª fase, o prazo entre TPS e 3ª fase foi dilatado e a quantidade total de vagas em disputa subiu para 25, na comparação com o último certame. Essas três mudanças têm efeitos extremamente positivos e decisivos, que serão analisados e aprofundados ao longo do texto.

 

Assuntos abordados

1. Datas mais importantes do Edital

2. Medidas preventivas (COVID-19)

2.1. Provas presenciais a toda prova

3. Mais vagas

4. Regras da 1ª fase (TPS)

4.1. O “peso” de cada disciplina

5. A fase mais elitista do CACD

6. A volta da 3ª fase

6.1. Regras especiais
6.2. O “Anexo IV”

7. Conteúdos Programáticos

7.1. História Mundial
7.2. História do Brasil

8. A importância decisiva dos recursos

 

1. Datas mais importantes do Edital

Como já era sabido desde a publicação da Portaria do CACD 2020, serão 25 vagas no concurso para diplomata desse ano: 18 para ampla concorrência, 5 para negros e 2 para pessoas com deficiência.

[ATUALIZAÇÃO em 13/08/2020: por recomendação do MPF, o cronograma de aplicação das provas do CACD 2020 foi suspenso, sem divulgação imediata de novas datas. Leia mais]

Vamos às principais datas:

  • Inscrições: 06/07/2020 a 09/08/2020
  • COMUNICADO com protocolos nos dias de provas: 24/08/2020
  • Primeira fase: 30/08/2020
  • Recursos 1ª fase: 31/08/2020 e 01/09/2020
  • Resultado definitivo 1ª fase: 16/09/2020
  • 2ª fase: 26/09/2020 e 27/09/2020 [atualizado após retificação no Edital nº 2]
  • Resultado provisório 2ª fase: 13/10/2020
  • Recursos 2ª fase: 14/10/2020 e 15/10/2020
  • Resultado definitivo 2ª fase: 26/10/2020
  • 3ª fase: 31/10/2020 a 02/11/2020
  • Resultado provisório 3ª fase: 20/11/2020
  • Recursos 3ª fase: 23/11/2020 e 24/11/2020
  • Resultado definitivo 3ª fase: 08/12/2020
  • Comissão de heteroidentificação: 11/12/2020
  • Resultado final do CACD 2020: 22/12/2020

 

2. Medidas preventivas (COVID-19)

Medidas por conta da COVID-19 foram anunciadas e serão complementadas por comunicado previsto para 24/08/2020.

Transcrevo e me abstenho de mais comentários:

“13.33 O IADES será responsável pelas seguintes medidas preventivas, relativamente à emergência de saúde pública de importância internacional decorrente do coronavírus (COVID-19), quando da aplicação das provas:

a) reforço da prevenção individual dos colaboradores e candidatos, com o uso máscaras e outros Equipamentos de Proteção Individual (EPI), bem como a definição de etiqueta respiratória;

b) disponibilização de frascos de álcool gel em todas as salas e em pontos de circulação;

c) triagem rápida na entrada dos candidatos para reduzir o tempo de espera no atendimento, com horários diferenciados de entrada, por coordenação, e demarcações das filas a serem respeitadas; uso dos banheiros pelos candidatos com rígido processo de controle, evitando o uso simultâneo e incentivando a prática da higiene e a devida assepsia;

d) desinfecção constante de superfícies mais tocadas, como corrimãos e maçanetas;

e) processo individual de identificação do candidato na entrada no ambiente de prova;

f) entrega e coleta de todos os materiais de prova dos candidatos em envelopes individuais;

g) captura, à distância, de fotografia digital dos candidatos no ambiente de provas, garantindo assim o armazenamento de seus dados e a conferência automatizada da presença de cada um;

h) coleta manual de digitais diretamente no formulário ótico de respostas do candidato;

i) garantia de distanciamento mínimo de 1 metro entre os candidatos, nas salas de aplicação das provas; e

j) controle individual de saída dos candidatos ao término das provas, evitando tumulto e aglomeração de pessoas.

13.34 Na data provável de 24 de agosto de 2020 será publicado COMUNICADO com instruções, procedimentos e protocolos que serão adotados no dia da realização das provas em função da COVID-19.”

 

2.1. Provas presenciais a toda prova

E se a lei impedir a realização de provas presenciais e atrapalhar a execução do cronograma? E se uma capital tiver lockdown e isso impedir a realização simultânea de provas em todas as capitais do país, como prevê o Edital?

O empenho do Itamaraty para garantir que nada impeça a execução do calendário do concurso é tanto que o Edital prevê também as regras a seguir em casos assim. Vou deixar você julgar (grifos meus):

“14.5.5 Em caso de suspensão ou alteração de data de qualquer fase do concurso por determinação de órgãos governamentais, legislativos e(ou) judiciais, em especial face a medidas preventivas relativas à COVID-19, o IRBr e o IADES não se responsabilizarão pelo ressarcimento ao candidato de eventuais despesas incorridas para participação na fase suspensa ou com data alterada. Em caso de suspensão, cronograma atualizado será divulgado oportunamente.

14.5.5.1 Caso a suspensão mencionada no subitem 14.5.5 ocorra em esfera estadual ou municipal, a fase interrompida poderá ser temporariamente suspensa em todas as demais localidades em que esteja prevista a aplicação de prova para aquela fase específica.

14.5.5.2 Em situação emergencial e visando à preservação e manutenção do cronograma de atividades do concurso, o IRBr e o IADES reservam-se ao direito de, em caso de excepcionalidade devidamente justificada, deslocar a aplicação do local de prova para outro município no mesmo estado ou em estado próximo, desde que tal alteração seja divulgada com antecedência mínima de 5 (cinco) dias da data determinada para o início daquela fase.”

3. Mais vagas

O número de vagas aumentou para 25, como já tinha sido anunciado na Portaria do CACD 2020. Serão 5 vagas a mais do que em 2019. Ainda não foi retomado, todavia, o patamar de 2018 (26). E segue distante o horizonte de 30 vagas do CACD 2017.

O efeito disso no resultado final é expressivo, porque a realização anual de concursos para diplomata com reduzido número de vagas tem produzido uma competição extremamente acirrada, no nível do detalhe. Em 2018, por exemplo, a diferença de pontos entre a última pessoa classificada dentro do número de vagas na ampla concorrência e a primeira que ficou de fora das vagas no resultado final foi de apenas 0,22 (de um total de 800 pontos em disputa). Em 2019, essa mesma diferença foi de 0,12. Nesse cenário, qualquer vaga a mais afeta decisivamente o resultado.

Principalmente porque o cálculo da nota final leva em conta apenas a pontuação das notas discursivas.

 

4. Regras da 1ª fase (TPS)

A 1ª fase do CACD é a que mais elimina, apesar de a pontuação obtida nas questões objetivas do concurso não ser contabilizada na nota final. Isso não mudou, e de resto as regras do TPS foram mantidas sem alteração significativa. A única novidade digna de nota — e ela é muito positiva — foi a ampliação da quantidade de convocados para a 2ª fase: aumentou de 200, em 2019, para 250. Também aqui o CACD 2020 segue aquém do nível (já muito baixo) de 2018 (260) e sobretudo do de 2017 (300).

Ou seja, há anos que está sendo mantido o padrão de convocar para a 2ª fase uma quantidade de candidatos proporcional à de vagas em disputa (na razão de 10 para 1). Isso quer dizer que, na prática, o resultado do CACD 2020 poderá sofrer efeitos positivos da mudança, mas em termos relativos tudo continua do mesmo jeito. Uma alteração nessa proporção seria extremamente salutar no futuro. Já ressaltei em outros textos aqui nesse mesmo blog o quanto esse aspecto é absolutamente decisivo para o resultado final do concurso para diplomata, mas nunca é demais repetir: inexiste correlação direta ou proporcional entre a classificação dos candidatos na prova objetiva e no conjunto das provas discursivas do CACD. O Guia do Texugo Melívoro, divulgado em 2017 pela turma de diplomatas aprovados em 2016, já tinha apontado esse fato (p. 19). Depois disso, uma análise estatística de dados de uma séria histórica completíssima, compilada por competente equipe da Estudologia, reafirmou:

Um questionamento comum entre CACDistas é se os melhores candidatos do TPS também são os melhores no concurso. A resposta é um enfático não. Não há correlação entre a nota no TPS e a Nota Final (coeficiente de pearson 0,12). Há algumas implicações oriundas dessa constatação:

(i) as competências exigidas na fase objetiva e nas fases discursivas são distintas;

(ii) os últimos do TPS não serão, necessariamente, os últimos do CACD e vice-versa;

(iii) se houvesse mais vagas para as próximas fases, o resultado do concurso, potencialmente, seria outro.
Raio-X do CACD, Estudologia

 

Igualmente relevantes, as demais regras de funcionamento da 1ª fase do CACD seguem as mesmas:

  • prova objetiva com 73 questões com 4 itens cada, todos de Certo ou Errado;
  • manteve-se o “padrão IADES” de penalização de cada erro com “apenas” 0,125 ponto negativo: na prática, duas erradas anulam uma certa;
  • também preservaram-se os prazos introduzidos pelo IADES em 2019: gabarito preliminar divulgado no mesmo dia da prova (30/08), após as 22h, com recursos nos dois dias seguintes (o que demanda atenção, porque será grande a tentação de negligenciar a importância e a urgência desse momento precioso);
  • resultado definitivo da Primeira Fase e convocação para a Segunda Fase previstos para 16/09/2020, a pouco mais de 10 dias da primeira prova discursiva;
  • a Primeira Fase segue apenas apenas eliminatória, de modo que a nota obtida no TPS não é contabilizada para efeitos da classificação final no concurso.

Quanto à nota de “corte” da 1ª fase, foi e sempre será imprevisível. Mas qualquer estimativa para o CACD 2020 deve levar em conta dois fatores: (a) o nível relativamente mais elevado que esse número atingiu no CACD 2019, quando a penalização por erro diminuiu de 0,250 para 0,125 ponto negativo (a nota do último classificado no TPS do ano passado alcançou quase 70% dos pontos em disputa, mais do que nos 5 anos anteriores); e (b) as 50 vagas “adicionais” que o Edital do CACD 2020 reservou para a 2ª fase.

 

4.1. O “peso” de cada disciplina

A distribuição do “peso” de cada disciplina na Primeira Fase do CACD 2020 também foi mantida intacta em relação a 2019. Isso é algo que não muda desde 2017:

Destaca-se, de longe, o peso de História na fase do concurso para diplomata que mais elimina, tanto em termos absolutos quanto em termos relativos. Somando as questões de História do Brasil e História Mundial, as questões dessa única disciplina respondem por 22 de 73 pontos em disputa no TPS. Não menos do que 30% da nota da Primeira Fase do CACD 2020.

Além disso, uma rápida leitura da tabela evidencia que a distribuição dos pontos é bastante desigual nessa etapa. Mas cuidado para não cair no erro comum de dividir o seu tempo de estudo de cada disciplina a partir exclusivamente desse critério. Afinal, os pontos que você obtiver nas questões objetivas do concurso serão indispensáveis para você passar, é certo. No entanto, serão absolutamente indiferentes na definição da sua classificação final, que dependerá do resultado das provas discursivas. Imperioso montar uma estratégia de estudos ou de revisão que tenha em conta essas duas realidades distintas e consecutivas, portanto.

Quanto às fases discursivas, as disciplinas da 2ª e da 3ª fase mantiveram, cada uma, o mesmo peso de antes. Todas valem 100 pontos, embora agora estejam distribuídas em 2 outras etapas formalmente distintas (como vinha acontecendo antes da “era IADES” começar). Isso significa que apenas Espanhol e Francês têm, à primeira vista, menor peso relativo na nota final do que as outras matérias: são dois idiomas que não caem no TPS e que, na fase discursiva, dividem entre si os 100 pontos da última prova do CACD 2020. Mas nem pense em desprezá-las: o estudo Raio-X do CACD calculou que, entre 2005 e 2017, as notas que mais diferenciaram os candidatos foram justamente as das provas dos 4 idiomas cobrados no concurso — Português, Francês e Espanhol, Inglês — e de História do Brasil, nessa ordem.

 

5. A fase mais elitista do CACD

Felizmente, as provas discursivas do CACD 2020 serão novamente aplicadas em fases distintas. Esse foi mais um padrão alterado em 2019, primeiro ano da “era IADES”, que agora é revertido. Pode ser que tenha sido para minimizar danos de algum problema na correção das discursivas, como ocorreu no ano passado. Não importa: o dado relevante é que os candidatos terão mais tempo para elaborar recursos contra as notas provisórias das provas discursivas de cada uma das duas “fases”. Trata-se, portanto, de mais do que mera alteração formal ou nominal. E, de quebra, isso produziu um prazo relativamente mais dilatado entre o TPS e as provas discursivas da 3ª fase (esse período era de cerca de 6 semanas no Edital do CACD 2019 e “aumentou” para 2 meses no Edital do CACD 2020). Quem já passou do TPS saberá estimar com precisão a diferença sensível dessas 2 semanas “a mais” de preparação específica para as provas de conhecimentos específicos, francês e espanhol.

Também nesses dois aspectos (prazo para recursos e intervalo entre fases) reverte-se alteração infeliz e retoma-se padrão “histórico” menos injusto (nesse caso, registre-se, a mudança para pior tinha precedido o IADES). O que não mudou nem foi revertido em relação a um passado relativamente recente foi o apego institucional às notas mínimas nas provas discursivas da 2ª fase: 60,0 pontos na prova de língua portuguesa e, principalmente, os famigerados 50,0 pontos na prova de língua inglesa. O elitismo segue como traço muito difícil de mitigar na Casa do Barão.

De resto, outros três registros sobre a 2ª fase podem despertar interesse de candidatos que já vislumbram a 2ª fase do CACD 2020:

  • salvo algum erro na versão do Edital que foi publicada no DOU de hoje, a prova de Português será aplicada num domingo (27/09) e a prova de inglês numa segunda-feira (28/09) [ATUALIZAÇÃO: essas datas foram retificadas no Edital nº 2, de 23/07/2020 e, de fato, havia um erro: as provas da 2ª fase do CACD 2020 serão aplicadas nos dias 26/09 e 27/09, sábado e domingo]
  • na prova de Língua Portuguesa, o padrão de uma redação de 60,00 pontos + 2 exercícios de 20,0 pontos cada foi alterado para 1 redação + 1 exercício + 1 resumo (com “peso” 60/20/20). O prof. Fernando Entratice detalhou, em seu blog, as mudanças nos critérios de pontuação dessa prova;
  • na prova de Língua Inglesa, a tradução vai valer 15,00 pontos e a versão 20,00, invertendo o “peso” que teve cada uma no CACD 2019 (respectivamente 20,00 e 15,00). Além disso, uma retificação do Edital publicada no Diário Oficial em 24/07 alterou alguns dos critérios de pontuação, sobretudo de penalização de erros.

6. A volta da 3ª fase

Felizmente, as provas de conhecimentos específicos voltaram a ser formalmente reunidas numa 3ª fase do concurso (junto com a prova de espanhol e francês). Essa mudança reverte alteração danosa introduzida, na prática, em 2018, embora nominalmente só tenha sido “assumida” em 2019. Ela tem duas consequências óbvias: um intervalo maior entre as provas de redação (português e inglês) e as demais provas discursivas (que já foi de menos de 1 semana e agora “ampliou-se” para 1 mês); e prazos maiores (e “separados”) para recorrer do conjunto das provas discursivas, cujas notas de fato definem a classificação final no concurso. De resto, essa fase elimina candidatos que obtenham menos do que 360,00 pontos no somatório das notas de todas as 6 provas, embora não haja (em tese) nota mínima em cada disciplina individualmente, como na 2ª fase do certame.

As datas das provas da 3ª fase serão as seguintes:

  • 31/10/2020 (manhã): História do Brasil (300 linhas);
  • 31/10/2020 (tarde): Geografia (200 linhas);
  • 01/11/2020 (manhã): Política Internacional (300 linhas);
  • 01/11/2020 (tarde): Economia (200 linhas);
  • 02/11/2020 (manhã): Direito (200 linhas);
  • 02/11/2020 (tarde): Língua Espanhola e Língua Francesa.

Cada uma das 6 provas da 3ª fase terá duração de 4 horas cada. Trata-se de uma quase unanimidade entre ex-candidatos aprovados: essa é a fase onde mais falta tempo, embora seja a que mais “conta” pontos. Nisso não houve mudança: de acordo com relatos da absoluta maioria dos aprovados, na 3ª fase não dá tempo nem pra pensar direito. É muita informação, pouco tempo e pouco espaço para escrever (se comparado com a quantidade de informações requeridas pelos corretores, que só vem aumentando a cada ano).

 

6.1. Regras especiais

Antes de aprofundar um pouco mais as regras das provas de 3ª fase, um parêntese para dois comentários tanto óbvios quanto necessários.

Ambos são autoexplicativos. Transcrevo os itens 13.12 e 13.31.1 do Edital:

13.12 A legibilidade é condição indispensável para a correção de todas as provas.

13.31.1 O candidato que responder a questão/exercício fora do campo reservado para esse fim, ou que responder a questão/exercício em campo reservado a outra questão/exercício, terá atribuída a nota 0,00 (zero) à questão/exercício.

Edital nº 1, de 29 de junho de 2020, CACD (publicado em 30/06/20)

Fecha o parêntese.

 

6.2. O “Anexo IV”

Uma das mudanças mais salutares introduzidas no CACD 2019, o primeiro da “Era IADES”, foi um detalhamento muito maior dos critérios de correção de questões discursivas. Os Editais de outros concursos organizados pela mesma empresa costumam sempre explicitar critérios de correção, o que parece ser um procedimento padrão e louvável do IADES.

O Edital do CACD 2019, por isso mesmo, trouxe uma novidade e revelou uma especificidade que tem sido muito negligenciada: ao explicitar critérios de correção de discursivas, ele não reproduziu os parâmetros que o IADES aplica a quase todos os outros concursos que organiza. O concurso da diplomacia do ano passado foi pautado por critérios de correção próprios, distintos, singulares. E todos eles foram detalhados no Edital do certame. Jamais acontecera algo assim antes, nesse nível de detalhamento.

Vale uma rápida olhada, pelo menos. No espaço limitado deste texto, vou limitar-me a destacar algumas das siglas, cujo significado é explicado no Edital. Para os meus objetivos aqui, basta listá-las. Elas podem ser encontradas no “Anexo IV” do Edital do CACD 2020, intitulado: “Critérios de Avaliação das Provas da Segunda e Terceira Fases

A correção da prova de Língua Portuguesa, por exemplo, tem que pautar-se por critérios como “Capacidade de argumentação“, ” Capacidade de análise e reflexão”, “Número de Erros“, “Penalização pelo Total de Linhas”, “Fidelidade ao Estilo“, entre outros parcialmente listados na tabela abaixo, de acordo com o Edital do CACD 2020:

Critérios similares aplicam-se à correção das respostas a questões discursivas escritas nos 3 idiomas estrangeiros cobrados no CACD. A prova de Inglês, por exemplo, inclui até mesmo um critério denominado “Apresentação e Desenvolvimento do Tema“, como na tabela parcialmente reproduzida abaixo, extraída do Edital do CACD 2020 que acaba de ser publicado:

O mais interessante é que esse Anexo IV trouxe também o detalhamento dos critérios específicos da correção das provas discursivas da Terceira Fase do CACD 2020. Em relação às questões de língua francesa e língua espanhola (LFE), também há tabelas de siglas com critérios parecidos aos aplicáveis às correções das provas da 2ª fase.

Quanto às outras 5 provas da 3ª fase, aquelas que tratam de conhecimentos específicos de alguma disciplina (História, Política Internacional, Geografia, Economia e Direito), há apenas uma tabela explicando os critérios aplicáveis. Ela não poderia ser mais eloquente:

O que essa tabela mostra é muito simples, muito direto e muito transparente: os corretores das respostas discursivas às questões das provas de conhecimentos específicos da 3ª fase têm 10 quesitos para julgar em cada questão de prova. Cada quesito pode valer 2,0 ou 3,0 pontos. Suas siglas são Q01, Q02, Q03… até Q10. Todos eles têm um campo próprio para preenchimento no alto da folha de respostas que o IADES fornece aos candidatos.

Em outras palavras: se o corretor da sua prova de História quiser, por exemplo, atribuir uma nota à sua “capacidade de argumentação”, ou subtrair pontos da sua nota por conta do “Número de erros” que ele contabilizou em sua resposta, ele simplesmente… NÃO tem como. Não há quesito correspondente a esses critérios para que ele possa pontuar. Não há campo para ele preencher com notas relativas a esses aspectos da sua prova de História, ou da sua prova de Economia, ou da sua prova de Geografia, ou da sua prova de Política Internacional, quando ele está de posse da sua folha de respostas. Ele tem que preencher uma nota em cada um dos 10 quesitos, de Q01 a Q10.

Isso é o que diz o Edital do CACD 2020.

Isso foi o que veio assinalado nos espelhos das provas dos candidatos que chegaram à última fase do CACD 2019 e tiveram suas respostas às questões discursivas corrigidas por duas bancas contratadas pelo IADES para aquele certame. Foi simples e direto, assim:

7. Conteúdos Programáticos

Eu sou absolutamente incompetente para fazer qualquer tipo de análise em relação às disciplinas do concurso que eu não leciono. Por isso, vou me limitar a comentar os conteúdos relacionados sob os títulos de “História do Brasil” e “História Mundial” no Edital do CACD 2020.

Não houve qualquer alteração nos conteúdos programáticos de História do Brasil ou de História Mundial, se comparados aos do Edital do CACD 2019. Manteve-se até mesmo o que havia de incompleto: os últimos tópicos de cada matéria, que foram incluídos em 2019 apenas pelo título (“Os impactos tecnológicos e digitais nas transformações políticas e sociais do Brasil no século XXI”, em HB, e “As relações internacionais no século XXI frente aos novos paradigmas digitais, as redes sociais e as modernas ferramentas tecnológicas de comunicação”, em HM), sem discriminar os respectivos itens de conteúdo, como acontece com os tópicos que já existiam antes disso. Com muito preciosismo, mas muito preciosismo mesmo, é possível localizar uma mudança no item 2.5 de HB (Anexo III do Edital do CACD 2020).

Em 2019, esse item foi redigido assim:

2.5 A influência das ideias liberais e sua recepção no Brasil
Edital nº 1, de 5 de julho de 2019, CACD (publicado em 08/07/19)

O mesmo item, no Edital do CACD 2020, veio com uma palavra diferente:

2.5 A influência das ideias liberais e sua repercussão no Brasil.
Edital nº 1, de 29 de junho de 2020, CACD (publicado em 30/06/20)

Essa sutil diferença não muda nada, portanto, no que se refere aos conteúdos que você deve buscar estudar para preparar-se para responder às questões de História no CACD 2020.

Uma nota importante, contudo, deve preceder qualquer conclusão a respeito do significado ou da importância do elenco de tópicos de HB e HM listados nos Editais do CACD. É que, ao menos no que se refere a História, não vale o que está escrito. Quero dizer com isso que, para quem conhece a prova e analisa o histórico das questões de História no CACD, resta evidente que não é raro encontrar um item objetivo ou uma questão discursiva que simplesmente trata de um assunto não previsto em Edital. Mais importante que estudar tudo o que está listado no Edital, portanto, é conhecer a História da prova e saber estudá-la da forma mais eficaz.

Ocioso dizer, a despeito disso, que os conteúdos programáticos previstos no Edital são o ponto de partida, ou seja, o mínimo que você precisa estudar caso pretenda fazer uma boa prova.

Por esse motivo, organizei tais conteúdos em lista, naquele formato que costuma ser chamado de “Edital verticalizado”. Acrescentei a essa lista algumas colunas de uma tabela que te sirva para controlar o progresso dos seus estudos, bem como as revisões periódicas que você eventualmente quiser fazer. Os dois arquivos resultantes, um pra HB e outro pra HM, estão disponíveis para download e impressão nos links abaixo:

HB – Conteudo Programático – CACD 2020 (Edital verticalizado + checklist de revisão)

HM – Conteudo Programático – CACD 2020 (Edital verticalizado + checklist de revisão)

Comentários mais analíticos sobre esses elencos de conteúdos estão reunidos a seguir, separados por cada “matéria” em que o CACD compartimenta a disciplina que vale mais pontos no concurso para diplomata 2020.

7.1. História Mundial

Começo pelos conteúdos que são cobrados explicitamente apenas na 1ª fase do concurso para diplomata, ou seja, apenas sob a forma de questões objetivas.

O conteúdo programático de HM no Edital do CACD 2020 manteve quase a mesma estrutura de 7 partes durante mais de 10 anos. Até hoje sobrevive, com apenas um acréscimo estrutural digno de nota em 2019 (o tópico 8 abaixo). Trata-se de estrutura temática, e não cronológica:

  1. Estruturas e ideias econômicas.
  2. Revoluções.
  3. As relações internacionais.
  4. Colonialismo, imperialismo, políticas de dominação.
  5. A evolução política e econômica nas Américas.
  6. Ideias e regimes políticos.
  7. A vida cultural.
  8. As relações internacionais no século XXI frente aos novos paradigmas digitais, as redes sociais e as modernas ferramentas tecnológicas de comunicação.

Interessante, mas atrapalha mais do que ajuda, para quem tenta começar a estudar para o CACD com base nessa listagem. Não existe um livro de síntese ou manual de História Mundial com essa mesma estrutura temática. Na prática, ninguém começa a estudar História Mundial prum concurso público tentando reinventar a roda: todo mundo estuda em ordem cronológica: primeiro o que veio antes, depois o que aconteceu em seguida. Simples e trivial, não precisa reinventar a roda.

E o pior: essa estrutura temática também não se reflete na enorme maioria das questões de História Mundial no TPS ao longo dos anos. Elas quase sempre são cronológicas e, portanto, acabam abarcando itens do conteúdo programático que no Edital encontram-se “dispersos” entre vários dos “tópicos” listados acima.

Seja como for, tivemos uma clara mudança no Edital publicado em 2019: a introdução de um oitavo “tópico”, sobre as relações internacionais no século XXI. Nesse caso, a inovação residiu não apenas na introdução de um tópico inteiro, mas no “transbordamento” cronológico para o século XXI, muito além do recorte cronológico que costuma ser tacitamente delineado entre questões de HM e PI ou Geografia. Além do mais, o novo “ponto 8” do Edital difere de todos os outros: ele não lista sub-tópicos, e portanto ficaremos à mercê de qual será, afinal, o significado que a banca vai atribuir a expressões tão conceitualmente precisas e esclarecedoras quanto “novos paradigmas digitais”. Na questões objetivas da prova da Primeira Fase do CACD 2019 esse novo assunto sequer foi tangenciado.

7.2. História do Brasil

Ao contrário de HM, o conteúdo programático de HB é listado no Edital em ordem cronológica, da mesma forma que costuma ser cobrado em quase todas as questões, tanto do TPS quanto das provas discursivas.

Mudanças inegáveis ocorreram em 2019, mas também tiveram devem pouca ou nenhuma implicação prática. A mais importante, a meu ver, foi em relação ao primeiro tópico: “O período colonial”. Desde que a história da colonização portuguesa na América passou a ser cobrada no CACD, há mais de 10 anos, havia uma flagrante (e crescente) desconexão entre o que estava escrito no Edital e o que era cobrado nas provas. Em relação a esse período, sempre estiveram previstos apenas 2 itens:

  1. A configuração territorial da América Portuguesa.
  2. O Tratado de Madri e Alexandre de Gusmão.

Isso criava 2 problemas. O primeiro era que vinha caindo absolutamente tudo de colônia na prova, há muitos anos: economia, política, administração, sociedade, até cultura no período colonial já foram objeto de itens objetivos de História do Brasil no CACD. E nada disso estava previsto no Edital antes de 2019. O outro problema era que, tanto nas questões objetivas quanto nas discursivas, as bancas já tinham cobrado praticamente todos os tratados do período colonial ao longo de pouco mais de 10 anos — embora o Edital previsse textualmente apenas a cobrança de conhecimentos relativos ao Tratado de Madri. Resultado: ninguém levava a sério o tópico 1 do conteúdo de HB. Por isso, no Edital do CACD 2019, houve uma mudança sutil — ou nem tanto. Os 2 itens sob o tópico “O período colonial” passaram a ser:

  1. A configuração territorial da América Portuguesa.
  2. As dimensões econômicas e sociais da América Portuguesa.

Bem genérico, bem preguiçoso, mas é o que se nos apresenta por ora. Na prática, isso não significa que a partir de agora teremos mais questões de colônia na prova. Não foi assim em 2019. Nos dois anteriores as questões relativas ao período colonial já tinha representado cerca de 1/4 dos itens objetivos de HB no TPS. Foi assim também no ano passado. O que ficou claro é que as questões sobre o período colonial continuam extrapolando os temas da configuração do território (grosso modo, expansão territorial e Tratados de Limites), da economia ou da sociedade coloniais. Qualquer candidato minimamente prudente deve seguir contando com questões sobre política, sobre administração e até mesmo sobre cultura na América Portuguesa.

Por fim, a cereja do bolo: além dos 10 grandes tópicos/período costumeiros da História do Brasil, o Edital do CACD 2019 trouxe uma inovação. Trata-se do ponto “11 Os impactos tecnológicos e digitais nas transformações políticas e sociais do Brasil no século XXI.”. Assim como ocorreu no conteúdo programático de História Mundial, aqui a banca “transbordou” para o século XXI, coisa que nunca tinha ocorrido em nenhuma questão de HB antes de 2019. Além disso, introduziu também nesse caso questões atinentes a impactos da tecnologia no mundo atual. Ademais, tanto quanto no conteúdo de HM, criou um tópico que só tem “título”, sem itens ou sub-tópicos como há nos outros 10 “pontos” do programa.

No caso de HB, no entanto, uma das 11 questões da prova objetiva de 2019 tratou de assuntos relacionados com o novo tópico introduzido no Edital daquele ano. Um dos itens abordou o agronegócio, outro contemplou o pré-sal, um terceiro mencionou Embraer e Embrapa e um último item versou sobre educação básica no Brasil contemporâneo. Os candidatos com quem tive contato e conversei a esse respeito foram unânimes: tinham estudado esses temas, num nível bem mais aprofundado do que a banca cobrou, no contexto de sua preparação para as provas de Geografia e Política Internacional. Eu diria que, em termos bem pragmáticos, qualquer questão sobre assunto que possa ser enquadrado sob esse guarda-chuva genérico de “impactos tecnológicos e digitais” na história recente do Brasil terá sido contemplada, nos seus estudos rotineiros, por meio das leituras de textos de Geografia, Economia, PI e sobretudo das notícias com que você já está habituado a conviver como cacdista.

 

8. A importância decisiva dos recursos

Embora não seja uma “fase” do certame, a elaboração e o julgamento de recursos contra as notas provisórias de provas discursivas acaba, na prática, cumprindo essa função. Em 2018, por exemplo, 2 dos 18 candidatos mais bem classificados na ampla concorrência, de acordo com as notas provisórias das provas discursivas, terminaram o concurso fora das vagas.  No estudo estatístico já citado antes neste mesmo texto, divulgado pela equipe da Estudologia (Raio-X do CACD), uma análise dos recursos já concedidos evidencia o quanto são cruciais essas poucas horas de prazos para recursos.

O “Raio-X do CACD” feito pela Estudologia mostrou, por exemplo, que ao longo de 5 anos (entre 2013 e 2017), em média 30% dos recursos foram deferidos. Em 2017, chegou a haver 21,6 pontos obtidos com recursos por um só candidato. Em 2016, foram 49,5. Contra 0,12 ponto de diferença entre o último dos candidatos classificados na ampla concorrência e a primeira pessoa listada “abaixo” dele na lista de nomes de aprovados do resultado final do CACD 2019…

Então, como você já deve ter notado, há aqui algumas providências a tomar, e que podem ser potencializadas por uma leitura acurada das regras e datas do Edital do CACD 2020.

Além de ter um prazo de quase 40 horas para elaborar os recursos referentes às 2 provas discursivas da 2ª fase, você terá um fim de semana inteiro entre a data de divulgação das notas provisórias das provas da 3ª fase (20/11/2020) e o início da contagem do prazo para recorrer contra elas (outras quase 40 horas nos dias 23 e 24 de novembro). É muitíssimo recomendável que você tenha um planejamento específico para esse final de semana. Se o calendário de atividades do concurso for executado à risca e não sofrer alterações, você poderá, inclusive, usar os dois dias de “brinde” (21 e 22 de novembro) para organizar o material que tiver produzido para subsidiar os seus recursos. É muito provável que você precise fazer isso “às cegas”, ou seja, sem ter ainda acesso aos seus espelhos de prova. Mais um motivo para você cogitar a possibilidade de usar de uma forma original os cerca de 20 dias previstos entre a última prova discursiva (02/11) e o início do prazo para recursos. Quem sabe até tentar resgatar e inventariar, de memória, alguns aspectos relevantes das respostas que você terá redigido nos 3 dias anteriores (31/10, 01/11 e 02/11), como já fizeram alguns ex-candidatos que hoje são diplomatas.

 

IMPORTANTE

(1) Esse texto foi finalizado às 11h30 do dia 30/06/2020 (qualquer alteração posterior a essa data estará assinalada logo abaixo do título do post);

(1.1) Importante atualização foi publicada em 29/07/2020, sobretudo as novas datas das provas da 2ª fase, retificadas pelo Edital nº 2, de 23/06/2020;

(2) Nenhuma análise de terceiros substitui a leitura do Edital na íntegra (bem como de sua retificação pelo Edital nº 2), que é o primeiro passo na sua preparação intensiva para o CACD 2020;

(3) correções a esse texto são muito bem-vindas 😉

Sobre o autor: Luigi Bonafé - aprendacom@luigibonafe.com

Eu sou um professor de História apaixonado pelo desafio de redescobrir o magistério e desvendar a banca do CACD a cada ano. Desde 2007 dou aulas especificamente para quem quer ser diplomata. De lá pra cá, as provas do concurso mudaram muito, e os candidatos também. Como professor, eu fui mudando junto. Desde 2015 passei a lecionar nos cursos teóricos extensivos do IDEG, que ajudaram a revolucionar os fundamentos da preparação para o concurso de diplomata. Desde 2016, em plataforma própria e independente de cursinhos, criei um método de preparação para as provas discursivas de História do Brasil do CACD. E esse método foi aplicado pelos 3 candidatos que tiraram as notas mais altas das provas discursivas de HB em 3 anos seguidos: 2016, 2017 e 2018. Deixa eu te contar um pouco mais dessa história...

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