crédito: Ricardo Padue (Reprodução/IPRI)

Sob nova direção

Luigi Bonafé • Atualizado em 2 set 2019 às 4h15Publicado em 2 set 2019 às 3h01

A partir de hoje, o Instituto Rio Branco (IRBr) tem uma nova diretora.

A mudança foi formalizada na edição do Diário Oficial da União publicada em 02/09/2019. Exonerada, a pedido, a diretora Gisela Padovan será sucedida pela presidente do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (IPRI), Maria Stela Pompeu Brasil Frota.

A nova Diretora-Geral do IRBr estava no comando do IPRI desde março de 2019, tendo sido nomeada já sob a chancelaria de Ernesto Araujo e a presidência de Jair Bolsonaro. Durante os governos do ex-presidente Lula, ela ocupou cargos como a presidência da Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG), entre 2005 e 2006, e a subsecretaria-geral do Serviço Exterior, entre 2006 e 2008. Depois serviu em Berna, Zurique e Atlanta.

Diplomata desde 1974, a embaixadora Maria Stela formou-se em Direito pela UERJ e escreveu um livro, publicado pelo IPRI em 1993, sobre “Proteção de Patentes de Produtos Farmacêuticos: o caso brasileiro”. O site do IPRI informa ainda que a embaixadora já foi condecorada com a Ordem do Rio Branco (Grã-Cruz), a Ordem do Mérito Militar (Oficial), a Ordem do Mérito Aeronáutico (Comendador), a Medalha Mérito Tamandaré, a Légion d’Honneur (França, Oficial) e a Ordre National du Mérite (França, Oficial).

À primeira vista, a escolha da nova diretora do Instituto Rio Branco não parece representar ruptura ou reorientação ideológica radical no comando da escola, responsável pelo Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD). Candidatos e candidatas chegaram a nutrir, nos últimos meses, temores de uma guinada ideologizante na direção do Instituto Rio Branco, devido a episódios recentes ocorridos dentro e fora do IRBr.

Em 9 de maio último, por exemplo, Filipe Martins, um dos homens de frente da turma bolsonarista “especializada” em política externa, foi palestrante em evento da FUNAG e do IRBr sobre “Governança global e autodeterminação popular“. Com “extenso currículo” apresentado à plateia pela própria embaixadora Maria Stela, o assessor especial de Assuntos Internacionais do presidente da República é um dos pupilos prediletos de Olavo de Carvalho. Na palestra, discorreu longamente sobre o suposto “globalismo” que os asseclas do filósofo do bolsonarismo associam ao que chamam de “marxismo cultural” de inspiração gramsciana.

Mais recentemente, em agosto, o próprio presidente Jair Bolsonaro mencionou o Instituto Rio Branco como antro de “esquerdistas”. Acuado diante dos questionamentos da imprensa após indicar o próprio filho para a Embaixada de Washington, o pai de Eduardo Bolsonaro fez referência à patrona escolhida pela turma de 2016 do Instituto Rio Branco. No ano passado, em sua formatura no IRBr, os diplomatas aprovados no concurso público mais difícil do país homenagearam Marielle Franco, vereadora do PSOL assassinada em março de 2018 que o Congresso brasileiro agraciou, in memoriam, com o Diploma Bertha Lutz (o principal suspeito do crime era vizinho de Jair Bolsonaro no condomínio Vivendas da Barra, no Rio de Janeiro, embora não haja suspeitas de envolvimento do presidente no crime).

A manifestação do presidente gerou reações até mesmo da discreta e moderada Associação dos Diplomatas Brasileiros (ADB), que divulgou nota pública em que “esclarece que a escolha da Vereadora Marielle Franco como patrona da turma de 2016 do Curso de Formação do Instituto Rio Branco não representa necessariamente opção ideológica dos formandos, menos ainda dos integrantes do MRE, que abriga servidores dos mais diferentes matizes ideológicos, sem que isso interfira no histórico empenho do Itamaraty na promoção incansável dos interesses nacionais”.

O texto da nota é o mínimo que se pode dizer a respeito da declaração nada fortuita do pai-presidente em defesa do filho que jamais chegou sequer perto de habilitar-se ao ingresso no Instituto Rio Branco:

A eleição do patrono/patrona de cada turma é democrática, e ao longo dos anos já foram homenageadas personalidades que perpassam todo o espectro político.

 

A escolha do nome da Vereadora representou essencialmente ato de repúdio a seu covarde assassinato e de defesa da liberdade de expressão, um dos princípios básicos da democracia, e como tal deve ser respeitada e entendida.

Presidente da Associação e Sindicato dos Diplomatas Brasileiros (ADB/Sindical)

Sobre o autor: Luigi Bonafé - aprendacom@luigibonafe.com

Eu sou um professor de História apaixonado pelo desafio de redescobrir o magistério e desvendar a banca do CACD a cada ano. Desde 2007 dou aulas especificamente para quem quer ser diplomata. De lá pra cá, as provas do concurso mudaram muito, e os candidatos também. Como professor, eu fui mudando junto. Desde 2015 passei a lecionar nos cursos teóricos extensivos do IDEG, que ajudaram a revolucionar os fundamentos da preparação para o concurso de diplomata. Desde 2016, em plataforma própria e independente de cursinhos, criei um método de preparação para as provas discursivas de História do Brasil do CACD. E esse método foi aplicado pelos 3 candidatos que tiraram as notas mais altas das provas discursivas de HB em 3 anos seguidos: 2016, 2017 e 2018. Deixa eu te contar um pouco mais dessa história...

Relacionados

Mais lidos

>