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Edital do CACD 2019: o que mudou e como isso afeta sua preparação

Luigi Bonafé • Atualizado em 10 jul 2019 às 8h01Publicado em 8 jul 2019 às 2h06

Desde que veio a público a notícia inesperada da mudança da banca organizadora do CACD 2019 (após quase 20 anos de provas elaboradas pelo Cespe/Cebraspe), a ansiedade de cacdistas na espera pelo primeiro edital do concurso para diplomata executado pelo desconhecido Iades – Instituto Americano de Desenvolvimento só vinha aumentando.

Agora que o Edital saiu, nem todas as dúvidas foram sanadas, e certamente a especulação não vai acabar. Mas algumas mudanças formalizadas no documento legal mais importante do certame já apontam mudanças muito positivas – ao passo que jogam por terra alguns dos temores mais bizarros que circularam nos últimos dias.

Este post tem o objetivo de identificar tais mudanças, delimitar também aquilo que NÃO mudou (bastante coisa!), distinguir o que o Edital ainda não esclareceu e, sobretudo, analisar em detalhes as implicações disso tudo nas suas estratégias de estudo e na forma como você vai organizar sua preparação em ritmo intensivo nos próximos dois meses.

Ao longo das próximas horas, este post será atualizado diversas vezes em tempo real, até chegar a sua versão final (volte para ler a versão mais atualizada)

[ATUALIZAÇÃO EM 10/07/2019: A gravação da “live” anunciada neste parágrafo e transmitida ao vivo em 08/07/2019 está disponível ao final deste texto] Além disso, no final do dia , a partir das 19h, vou fazer uma transmissão ao vivo, aberta, gratuita e com a ilustre companhia dos professores Thiago Rocha (de Geografia) e Marcello Bolzan (de Economia). Juntos nós vamos resumir as principais mudanças, identificar as continuidades dignas de nota e desdobrar mais detalhes referentes a cada disciplina. A ideia é sugerir formas de (re)organizar sua preparação para lidar com a nova realidade do CACD 2019 sem desviar-se do rumo nem cair no desespero e, sobretudo, responder as dúvidas mais recorrentes que surgirem no bate papo em tempo real. A inscrição pode ser feita diretamente no site do IDEG.

 

DISCLAIMERS

(1) Esse é um “work in progress“. Optei por publicar o texto gradualmente, para evitar ao máximo conclusões precipitadas e ao mesmo tempo oferecer respostas rápidas para suas principais dúvidas. Então, ao longo das próximas horas, este post será atualizado diversas vezes, até chegar a sua versão final. Tanto os horários das atualizações quanto a finalização do post serão sinalizados explicitamente lá no alto dessa página, logo abaixo do título deste post. Dessa forma você pode voltar aqui ao longo do dia e saber exatamente em que ponto parou, além de identificar o que foi incluído desde a última vez que você abriu a página;

(2) Nenhuma análise de terceiros substitui a leitura do Edital na íntegra, que é o primeiro passo na sua preparação intensiva para o CACD 2019;

(3) correções a esse texto são muito bem-vindas 😉

 

RESUMÃO DAS FASES E DATAS PREVISTAS DO CACD 2019

Texto integral do Edital no Diário Oficial da União


Vagas: 20
vagas (15 na ampla concorrência, 4 para negros e 1 para PCDs)
Inscrições: 17/07/2019 a 12/08/2019
Valor da taxa de inscrição: R$ 208,00
Salário inicial bruto: R$ 19.199,06

TPS (1ª fase, questões objetivas): 08/09/2019 em todas as capitais

– apenas eliminatória (a nota no TPS não é contabilizada para efeitos da classificação final no concurso)
– mantidas as 73 questões objetivas de C/E, mas agora cada erro subtrai apenas metade do valor de cada acerto
– gabarito preliminar no mesmo dia do TPS (domingo 08/09, após as 22h) e recursos nos 2 dias seguintes
– Aprovados para 2ª fase: 150 na ampla, 40 negros, 10 PCDs
– Resultado final da 1ª fase e convocação para 2ª fase: 20/09/2019

2ª fase:

– 12/10: Português
– 13/10: Inglês
– 18/10: História do Brasil e Geografia
– 19/10: PI e Economia
– 20/10: Direito(s) e Espanhol e Francês
Resultados provisórios: 05/11/2019
Recursos 2ª fase: 6 e 7 de novembro de 2019
Resultado final da 2ª fase: 25/11/2019

Resultado final do CACD 2019: 17/12/2019

 

1. As mudanças mais importantes

um pouco menos “Cespices”: no TPS 2019, duas erradas é que anulam uma certa

Antes de mais nada, vamos começar pela melhor de todas as notícias… apesar das muitas mudanças, foram preservados o formato e a estrutura das questões de cada fase do concurso. A principal mudança, nesse aspecto mais geral, é na contagem dos pontos da 1ª fase. Em vez de “uma errada anular uma certa”, no TPS 2019 cada marcação errada na prova objetiva será apenada com apenas metade dos pontos obtidos com cada marcação correta. Então, em poucas palavras, é lícito dizer que a partir de agora “duas erradas anulam uma certa“. E isso muda sensivelmente o resultado dessa etapa do concurso, que é a que mais elimina (tanto em termos absolutos quanto em termos relativos). Com menor penalização dos erros, a 1ª fase da prova começa, ainda que timidamente e apenas em termos comparativos, a tornar-se uma fase eliminatória que aprova quem acerta mais, e não quem erra menos. Ponto para o Instituto Rio Branco! Pudera tal tipo de mudança ser lenta mas ao mesmo tempo gradual, pois assim poderíamos esperar um CACD 2020 sem nenhum resquício de Cespices… só vamos descobrir no ano que vem.

Dada a boa notícia, vamos relembrar as más notícias que já tinham sido anunciadas na Portaria do CACD 2019 e inventariar aquelas que só vieram à tona no Edital publicado hoje.

1.1. Menos vagas

O número de vagas diminuiu, mais uma vez: de 30 vagas, em 2017, passamos para 26, em 2018, e agora chegamos a 20 no total. Isso reduz para 5 a cota de vagas reservadas para negros e negras no CACD 2019; para 15 a quantidade de vagas de diplomata disputadas na ampla concorrência; e para apenas 1 a cota de vagas reservada para pessoas com deficiência. Para além da questão quantitativa, o problema gerado por tamanha diminuição de vagas tem a ver com a subjetividade, inevitável, da correção de provas discursivas, cujas notas são as únicas que somam pontos para definir a classificação final no concurso. Mesmo que os critérios de correção tornem-se os mais objetivos possíveis, o nível de excelência dos candidatos torna as pequenas injustiças quase incontornáveis. Em 2018, por exemplo, a diferença de pontos entre a última pessoa classificada dentro do número de vagas na ampla concorrência e a primeira que ficou de fora das vagas foi de apenas 0,22. Isso mesmo: 2 décimos. 0,22 de um total de 800 pontos em disputa. Ou seja, 0,02% dos pontos que o conjunto de corretores avaliou em pouco tempo.

1.2. Menos aprovados na 1ª fase

A quantidade de aprovados para a 2ª fase do concurso também caiu proporcionalmente: 300 em 2017, 260 em 2018 e agora chegamos a 200 (embora isso não seja inédito). Um problema que afeta diretamente o resultado do concurso, já que está mais do que provado estatisticamente não haver relação direta ou proporcional entre a classificação na 1ª fase do CACD e a classificação final no concurso. O Guia do Texugo Melívoro, divulgado em 2017 pela turma de diplomatas aprovados em 2016, já tinha apontado esse fato (p. 19). Depois disso, uma análise estatística de dados de uma série histórica completíssima, compilada por competente equipe da Estudologia, reafirmou:

Um questionamento comum entre CACDistas é se os melhores candidatos do TPS também são os melhores no concurso. A resposta é um enfático não. Não há correlação entre a nota no TPS e a Nota Final (coeficiente de pearson 0,12). Há algumas implicações oriundas dessa constatação: (i) as competências exigidas na fase objetiva e nas fases discursivas são distintas; (ii) os últimos do TPS não serão, necessariamente, os últimos do CACD e vice-versa; (iii) se houvesse mais vagas para as próximas fases, o resultado do concurso, potencialmente, seria outro.
Raio-X do CACD, Estudologia

É lícito supor que a diminuição sensível do peso do apenamento por cada erro nos itens objetivos da 1ª fase do concurso pode mudar essa estatística. Mas não o suficiente para estabelecer correlação que anule o fato de que a quantidade menor de vagas na 2ª fase do CACD 2019 tem potencial para deixar de fora candidatos que poderiam figurar entre os 15 ou 20 mais bem classificados no somatório das notas das provas discursivas do certame. A manutenção parcial da lógica “cespiana” deve seguir, portanto, distorcendo o perfil do conjunto de candidatos que chegam ao final do concurso e que, portanto, são aqueles que o MRE recruta como diplomatas. Mas podemos ser otimistas e imaginar que, daqui a um ou dois anos, talvez o Instituto Rio Branco aprofunde a tendência de mudança e acabe de uma vez por todas com esse cacoete do TPS.

1.3. Menor prazo para recursos

Em 2018, o CACD 2018 já pregou uma peça para candidatos que avançaram às fases discursivas do concurso: quem discordou das suas notas provisórias teve menos de 35 horas de prazo para interpor recursos contra a correção de todas as suas questões de todas as 8 provas que agora, em 2019, foram reunidas numa única etapa do certame. Menos de dois dias. Nos anos anteriores tinha havido 2 dias para recursos contra as notas da 2ª fase e mais 2 dias para recorrer contra as notas de todas as provas da 3ª fase.

Em 2019 a “inovação” foi preservada. Serão 2 dias apenas (com uma quantidade um pouquinho maior de horas: 40) para recorrer contra as notas de todas as provas discursivas de uma vez. Esse é o motivo da “fusão” da 2ª e da 3ª fases, anunciada na Portaria do CACD 2019: ganhar tempo entre uma fase e outra, reduzindo o prazo total entre a primeira prova e o resultado final do concurso. A aparente “eliminação” da 3ª fase, portanto, não é exatamente uma novidade deste ano. Na prática, ela já tinha ocorrido em 2018 e foi agora apenas assumida oficialmente. Por outro lado, continua havendo notas mínimas separadas para as provas que, no CACD 2018, compunham a 2ª fase, e para o conjunto das notas das outras 6 provas discursivas que até ano passado foram chamadas de “3ª fase”, como se ainda fossem etapas distintas do concurso:

7.5.1 Serão considerados aprovados na Segunda Fase os candidatos que tenham alcançado nota mínima de 60,00 pontos na prova de língua portuguesa, a nota mínima de 50,00 pontos na prova de língua inglesa e a nota mínima de 360,00 pontos na soma das pontuações obtidas no conjunto das provas de história do Brasil, de política internacional, de geografia, de economia, de direito e direito internacional público e de língua espanhola e língua francesa.
Edital do CACD 2019

 


O problema é que, como vimos acima, 0,22 pontos fazem toda diferença, e portanto haveria motivos de sobra para tratar com um pouco mais de cuidado essa “etapa” tão crucial do concurso. Embora não seja uma “fase” do certame, textualmente, ela acaba cumprindo essa função, na prática. Em 2018, por exemplo, 2 dos 18 candidatos mais bem classificados na ampla concorrência, de acordo com as notas provisórias das provas discursivas, terminaram o concurso fora das vagas. No estudo estatístico já citado acima, divulgado pela equipe da Estudologia (Raio-X do CACD), uma análise dos recursos já concedidos evidencia o quanto são cruciais essas poucas horas de prazos para recursos.

O estudo mostrou, por exemplo, que ao longo de 5 anos (entre 2013 e 2017), em média 30% dos recursos foram deferidos. Em 2017, chegou a haver 21,6 pontos obtidos com recursos por um só candidato. Em 2016, foram 49,5. Contra 0,22…

Então, como você já deve ter notado, há aqui algumas providências que só você pode tomar, porque não dá pra contar com a razoabilidade da banca. Se o julgamento dos recursos tem todo esse potencial de afetar a sua classificação final e num prazo tão exíguo, trabalhe com essa informação e aproveite que você sabe disso antecipadamente. Ao concluir a última prova discursiva da 2ª fase do CACD 2019, o concurso não terminou pra você. Nesse momento é que começa mais uma fase do certame, não tão oculta assim. Portanto, se a última prova for num domingo, você descanse uma noite completa de um sono bem dormido e, na segunda-feira seguinte, comece a preparar seus recursos contra as notas provisórias das provas discursivas, aproveitando tudo o que tiver de anotações e memórias frescas na cabeça.

Finalmente, se por um lado essa fusão das fases discursivas não foi propriamente uma “inovação” do CACD 2019, teve outra alteração em relação a prazos para recursos que constitui sim uma novidade da era Iades. Nos últimos anos, o gabarito preliminar oficial do TPS costumava ser divulgado cerca de 48h após o fim das provas da 1ª fase do concurso. O prazo para interposição de recursos, por sua vez, tinha início na manhã do dia seguinte. Este ano será tudo mais corrido: o gabarito preliminar está previsto para sair após as 22h do próprio dia de aplicação do TPS e o prazo para recursos começa a contar a partir das 8 horas do dia seguinte.

2. Conteúdos Programáticos

Houve muitas mudanças nos Conteúdos Programáticos de quase todas as matérias no Edital do CACD 2019. Não as mudanças esperadas. Nada de globalismo, terraplanismo ou filosofia medieval. Mas mudanças importantes, sobretudo em Política Internacional, Economia e Direito, ocorreram. Elas devem ser analisadas à luz não apenas do que está escrito no edital do certame, mas sobretudo com base na análise específica das tendências históricas de cada banca e de acordo com a composição dos membros da banca elaboradora das questões de cada disciplina (que ainda não conhecemos). Eu sou absolutamente incompetente para fazer esse tipo de análise em relação às matérias do concurso que eu não leciono. Por isso, farei tal análise em relação apenas a História do Brasil e História Mundial. Sobre as mudanças nos conteúdos programáticos das outras matérias do concurso, aliás, o pessoal do Clipping CACD fez um resumo visualmente muito didático e objetivo.

Uma nota importante, contudo, deve preceder qualquer conclusão a respeito do significado dessas mudanças. É que, ao menos no que se refere a História, não vale o que está escrito. Quero dizer com isso que, para quem conhece a prova e analisa o histórico das questões de História no CACD, resta evidente que não é raro encontrar um item objetivo ou uma questão discursiva que simplesmente trata de um assunto não previsto em Edital.

Um exemplo, extremo, é o suficiente para ilustrar essa idiossincrasia do concurso para diplomata. Até 2015, o conteúdo programático de História Mundial nos editais do CACD previa um item 2.4 Movimentos operários: luditas, cartistas e “Trade Unions. A partir do Edital do CACD 2016, contudo, esse item foi excluído. Você pode procurá-lo nos editais de 2016, 2017, 2018 e até mesmo neste último, de 2019: ele não está mais lá há muitos anos. Mas, como no CACD não vale o que está escrito, veja só o item que foi cobrado no TPS do ano passado e não foi anulado:

Em países mais industrializados, como a Inglaterra, as condições dos trabalhadores das fábricas eram muito precárias, com jornadas exaustivas de trabalho, o que resultou no surgimento dos primeiros movimentos trabalhistas — trade unions —, que, entre suas principais reivindicações, almejavam maior participação política por meio do sufrágio universal.
CACD 2018 – 1ª fase – questão 62


E esse é só um de muitos exemplos. Portanto, leia o que vem a seguir sabendo, de antemão, que o conteúdo programático de cada matéria nos Editais do CACD, historicamente, são uma referência insuficiente para orientar os seus estudos. Em outras palavras: eles são úteis, sobretudo às vésperas das provas, para você checar de tempos em tempos e assegurar que não deixou nada de fora. Mas, por outro lado, nem tudo o que pode ser cobrado está ali. É preciso completar essa lista de tópicos com uma boa análise do histórico de questões de História ao longo dos anos.

2.1. História Mundial


Começo pelos conteúdos da disciplina que são cobrados explicitamente apenas na 1ª fase do concurso para diplomata, ou seja, apenas sob a forma de questões objetivas.

O conteúdo programático de HM no Edital do CACD 2019 manteve quase a mesma estrutura de 7 partes dos últimos anos, exceto por um detalhe que discuto adiante. Essa estrutura já conhecida é temática, e não cronológica:

  1. Estruturas e ideias econômicas.
  2. Revoluções.
  3. As relações internacionais.
  4. Colonialismo, imperialismo, políticas de dominação.
  5. A evolução política e econômica nas Américas.
  6. Ideias e regimes políticos.
  7. A vida cultural.
  8. As relações internacionais no século XXI frente aos novos paradigmas digitais, as redes sociais e as modernas ferramentas tecnológicas de comunicação.

Interessante, mas atrapalha mais do que ajuda, para quem tenta começar a estudar para o CACD com base nessa listagem. Não existe um livro de síntese ou manual de História Mundial com essa mesma estrutura temática. Na prática, ninguém começa a estudar História Mundial prum concurso público tentando reinventar a roda: todo mundo estuda em ordem cronológica. E o pior: essa estrutura temática também não se reflete na enorme maioria das questões de História Mundial no TPS. Elas quase sempre são cronológicas e, portanto, acabam abarcando tópicos do conteúdo programático que no Edital encontram-se “dispersos” entre vários dos “pontos” listados acima.

Seja como for, temos uma clara mudança neste Edital publicado hoje: a introdução de um oitavo “ponto”, sobre as relações internacionais no século XXI. Nesse caso, a inovação reside não apenas na introdução de um tópico inteiro, mas no “transbordamento” cronológico para o século XXI, muito além do recorte cronológico que costuma ser tacitamente delineado entre questões de HM e PI ou Geografia. Além do mais, o novo “ponto 8” do Edital difere de todos os outros: ele não lista sub-tópicos, e portanto ficaremos à mercê de qual será, afinal, o significado que a banca vai atribuir a expressões tão conceitualmente precisas e esclarecedoras quanto “novos paradigmas digitais”.

Quanto aos outros 7 “pontos” já consagrados do conteúdo de HM, quais as mudanças? O que elas significam na prática? Em resumo, nenhuma mudança com implicações concretas ou relevantes o suficiente para reorientar as suas estratégias de preparação.

Cosmeticamente, o que houve foram 3 alterações

  • o item 3.2 foi resumido: até o ano passado, ele tinha a seguinte redação: “O Concerto Europeu e sua crise (1815-1918): do Congresso de Viena à Santa Aliança e à Quádrupla Aliança, os pontos de ruptura, os sistemas de Bismarck, as Alianças e a diplomacia secreta.”. No Edital do CACD 2019, mudou para apenas: “O Concerto Europeu e sua crise (1815-1918).”. Nenhuma alteração efetiva, portanto. Vão continuar caindo na prova o Congresso de Viena, os sistemas de Bismarck, a Santa Aliança etc.
  • um item que constava do Edital do CACD 2018 foi eliminado. Era o sub-tópico “3.4 A questão balcânica (incluindo antecedentes e desenvolvimento recente).”. Isso significa que a banca não poderá cobrar mais nenhum item sobre questão balcânica? Bom, o exemplo da questão sobre “trade unions” no ano passado já seria suficiente para responder a essa pergunta. Mas, para além disso, é perfeitamente razoável considerar que os vários episódios e processos históricos que podem ser enquadrados sob a rubrica de “questão balcânica” estão contemplados em muitos outros tópicos e sub-tópicos do conteúdo programático. Nenhuma mudança, portanto, na prática.
  • o item 5.3 do conteúdo de HM no Edital do concurso da diplomacia de 2019 veio com uma aparente novidade. Agora ele inclui “militarismo e caudilhismo”, que não apareceram sob esse item no Edital do CACD 2018. Agora ele tem a seguinte redação: “5.3 A constituição das identidades nacionais e dos Estados na América Latina; militarismo e caudilhismo.”. A mudança, contudo, não passa de ilusão de ótica. A expressão “militarismo e caudilhismo” já fora incluída no conteúdo programático de HM no Edital do CACD em 2016, mas sob o tópico “2.2 Processos de independência na América.”. O que houve, portanto, foi uma correção necessária: militarismo e caudilhismo são conceitos muito mais pertinentes aos processo de constituição dos Estados Nacionais na América Latina do que limitados aos processos de independência na região. Nenhuma mudança, também nesse caso.

(encontrou mais alguma alteração ou notou algo diferente além do que eu enxerguei? Me conta nos comentários desse post, por favor!)

2.2. História do Brasil

Ao contrário de HM, o conteúdo programático de HB é listado no Edital em ordem cronológica, da mesma forma que costuma ser cobrado em quase todas as questões, tanto do TPS quanto das provas discursivas.

Mudanças inegáveis ocorreram, mas também devem ter pouca ou nenhuma implicação prática. A mais importante, a meu ver, foi em relação ao primeiro tópico: “O período colonial”. Desde que a história da colonização portuguesa na América passou a ser cobrada no CACD, há mais de 10 anos, havia uma flagrante (e crescente) desconexão entre o que estava escrito no Edital e o que era cobrado nas provas. Em relação a esse período, sempre estiveram previstos apenas 2 itens:

  1. A configuração territorial da América Portuguesa.
  2. O Tratado de Madri e Alexandre de Gusmão.

Isso criava 2 problemas. O primeiro era que vinha caindo absolutamente tudo de colônia na prova. Economia, política, administração, sociedade, até cultura no período colonial já foram objeto de itens objetivos de História do Brasil no CACD. E nada disso estava previsto no Edital. O outro problema era que, tanto nas questões objetivas quanto nas discursivas, as bancas já cobraram praticamente todos os tratados do período colonial ao longo dos últimos anos – embora o Edital previsse apenas e tão somente o Tratado de Madri. Resultado: ninguém levava a sério o tópico 1 do conteúdo de HB. Por isso, no Edital do CACD 2019, houve uma mudança sutil — ou nem tanto. Agora os 2 itens sob o tópico “O período colonial” são:

  1. A configuração territorial da América Portuguesa.
  2. As dimensões econômicas e sociais da América Portuguesa.

Bem genérico, bem preguiçoso, mas é o que se nos apresenta no dia que corre. Na prática, isso não significa que a partir de agora teremos mais questões de colônia na prova. Nos últimos dois anos elas já foram cerca de 1/4 dos itens objetivos de HB no TPS. Mas também não significa que daqui por diante as questões sobre o período colonial vão restringir-se a configuração do território (grosso modo, expansão territorial e Tratados de Limites), economia e sociedade. Qualquer candidato minimamente prudente deve seguir contando com questões sobre política, sobre administração e, por que não, até mesmo sobre cultura na América Portuguesa.

Outras duas 3 mudanças sutis tiveram caráter apenas cosmético:

  • No Edital do CACD 2018,  o tópico “2. O processo de independência.” listava 6 itens ou sub-tópicos. Agora são apenas 5. Foi excluído um item que chamava-se “2.5. A política externa”. Não parece prudente supor que tal mudança possa significar uma restrição a questões sobre a política externa portuguesa executada no Brasil durante o período joanino (1808-1821). E muito menos pode-se deduzir que a “política externa” da independência tenha sido suprimida do Edital. Afinal, as negociações para o reconhecimento da independência foram parte da política externa do Primeiro Reinado (1822-1831), que continua textualmente elencada no conteúdo programático de História do Brasil. Em relação a esse ponto não há nada aqui que afete a sua preparação ou os assuntos que você precisa estudar pra prova.
  • Um dos itens sob “O Segundo Reinado (1840-1889)” que constava no Edital do CACD 2018 era “5.5 As questões religiosa, militar e abolicionista.”. Agora ele não existe mais, corrigindo uma redundância no conteúdo programático de HB. Afinal de contas, as três clássicas questões de fins do período imperial são integrantes do processo de “Crise do Estado Monárquico”, que foi mantido como o item 5.4. Nenhuma mudança à vista, portanto.
  • Sob o tópico “O Regime Militar (1964-1985).”, nada foi suprimido. Apenas tratou-se de consertar um erro crasso que persistia sem maiores consequências: “O processo de transição política” da Ditadura para a Nova República estava elencado como 9.2, logo após “A Constituição de 1967 e as modificações de 1969.”. Agora ele foi deslocado para o final e passou a ser numerado 9.5. Trata-se, por óbvio, de uma sutil e absolutamente irrelevante correção de ordem cronológica dos acontecimentos e processos históricos.

Por fim, a cereja do bolo: além dos 10 grandes tópicos/período costumeiros da História do Brasil, o Edital do CACD 2019 trouxe uma inovação. Trata-se do ponto “11 Os impactos tecnológicos e digitais nas transformações políticas e sociais do Brasil no século XXI.”. Assim como ocorreu no conteúdo programático de História Mundial, aqui a banca “transbordou” para o século XXI, coisa que nunca ocorreu em nenhuma questão de HB dos últimos 10 anos. Além disso, introduziu também nesse caso questões atinentes a impactos da tecnologia no mundo atual. Ademais, tanto quanto no conteúdo de HM, criou um tópico que só tem “título”, sem itens ou sub-tópicos como há nos outros 10 “pontos” do programa.

A impressão é a de uma mudança iniciada e não concluída, como se anunciasse alterações ainda a ser definidas e/ou especificadas no futuro. O que é que pode ser cobrado relativo a esse novo título inespecífico, portanto, eu não saberia dizer. Confesso que minha primeira reação, quando li, foi pensar em alguma questão sobre a influência do WhatsApp na eleição do bozo. Mas, como o que está no horizonte é uma prova séria, eu diria que, em termos bem pragmáticos, qualquer questão sobre assunto que possa ser enquadrado sob esse guarda-chuva genérico de “impactos tecnológicos e digitais” na história recente do Brasil terá sido contemplada, nos seus estudos rotineiros, por meio das leituras de textos de Geografia, Economia, PI e sobretudo das notícias com que você já está habituado a conviver como cacdista.

2.3. Como isso afeta seus estudos para as provas de História do CACD

Pelo que você leu acima, já ficou claro que nesse Edital do CACD 2019 não me parece haver qualquer mudança significativa, em termos práticos, relacionada aos conteúdos de História do Brasil ou História Mundial que você sempre estudou para o CACD.

O relevante, nesse caso, me parece que é aquilo que NÃO mudou. Há nesse documento inaugural do CACD 2019, em relação às questões de História, uma mensagem muito eloquente de continuidade.

Mais importante ainda: mesmo que houvesse indícios mais explícitos de mudanças pontuais (nos tópicos 8 de HM e 11 de HB, por exemplo), a quase totalidade dos pontos em disputa continuariam dependendo daquilo que continua inalterado.

Some-se a isso tudo o fato de que o TPS manteve o mesmo formato (só questões objetivas de C/E), a mesma quantidade total de questões, a mesma distribuição de questões por disciplina e o mesmo peso enorme de História no cálculo da nota da 1ª fase do concurso, pouco acima dos 30%. Não bastasse isso, o IADES simplesmente não tem acervo de questões de História: a instituição já aplicou provas com itens sobre história do jornalismo, sobre história de Goiás, sobre a disciplina histórica do ponto de vista teórico-metodológico, mais acadêmico, sobre história antiga e medieval (que extrapolam o Edital do CACD) e só. Em suma, me parece bastante racional esperar uma prova muito parecida com o padrão já conhecido do Cespe/Cebraspe. Voltarei a esse ponto no final deste texto.

Como isso tudo afeta seus estudos, então? De imediato, a meu ver, essa continuidade predominante reafirma a importância de intensificar os seus esforços, nos próximos 2 meses até o TPS, com base em questões objetivas que já foram aplicadas em anos anteriores (discuto a preparação para as provas discursivas em outra parte do texto, mais adiante). Mas, além de treinar com exercícios, é hora de revisar. Repassar seu material acumulado, conferir se não ficou nada de fora, se o entendimento de algum tópico do edital está nebuloso na sua cabeça. E repetir, repetir, repetir. A quantidade de informações com que você tem que lidar nessa época é imensa, e o seu cérebro estará trabalhando intensamente para esquecer. Só a repetição salva nessa hora.

Por isso, organizei os conteúdos de HB e HM listados no Edital de forma “verticalizada” e associada a uma espécie de “checklist“. Isso resultou num instrumento bem trivial de estudo, que é parte do curso intensivo de exercícios objetivos de HB e HM que estou terminando de elaborar com base na nova realidade do Edital do CACD 2019. Mas pode ser útil independente do curso ou do professor que você escolher para sua preparação intensiva nessa fase, então resolvi compartilhar aqui abertamente. Ele pretende, num primeiro momento, servir apenas e tão somente para você mapear o estado atual da sua preparação. Há campos para marcar se, em relação a cada tópico do Edital, você já teve aula sobre aquele assunto, já leu ao menos um texto essencial a respeito (coluna “Txt”), já fez exercícios objetivos sobre o tema (coluna “Exs”) etc. Depois, num segundo momento, pode ser também usado para acompanhar seus estudos intensivos pré-TPS por meio de revisões programadas (colunas “Rev1”, “Rev2”, “Rev3”). Trata-se, como pode perceber, de material absolutamente despretensioso, que só ganha sentido no contexto de uma estratégia mais geral:



3. O que não mudou — e por que isso é bom

Dá pra dizer que esse Edital trouxe mais continuidades do que rupturas, mesmo após a mudança de governo e a guinada ideológica na política externa brasileira?

Eu antecipo que, na minha opinião, sim. Não apenas dá pra dizer isso como também é difícil sustentar, diante das informações disponíveis hoje, que as mudanças serão drásticas. A começar pelo fato, inequívoco, de que a quantidade de provas, a quantidade questões por prova, o tamanho de cada questão, a distribuição dos pontos pelas disciplinas, tudo isso foi mantido inalterado. Ou seja, a estrutura geral do concurso e, mais importante ainda, os critérios de cálculo da nota final no certame foram mantidos (já que a mudança no cálculo da nota da 1ª fase não afeta a nota final de cada candidato). Mas a minha opinião importa menos do que os dados sacramentados no Edital, então vamos a eles.

3.1. História continua sendo a disciplina que vale mais pontos

As disciplinas da 2ª fase mantiveram, cada uma, o mesmo peso de antes. Todas valem 100 pontos. Isso significa que apenas Espanhol e Francês têm potencialmente menor peso relativo na nota final do que as outras matérias, já que não são cobradas no TPS e, na fase discursiva, os 100 pontos da última prova do CACD 2019 são divididos entre as questões desses dois idiomas (mas nem pense em desprezá-las: o estudo Raio-X do CACD calculou que, entre 2005 e 2017, as notas que mais diferenciam os candidatos são justamente as das provas de Português, Francês e Espanhol, Inglês e História do Brasil, nessa ordem).

Na 1ª fase, por outro lado, a distribuição do peso de cada disciplina é bastante desigual, mas também nisso o Edital do CACD 2019 manteve rigorosamente o mesmo exato padrão dos dois anos anteriores:

TPS 2019 - distribuição das questões por matéria

Ou seja, continuam sendo 73 questões objetivas, todas elas de CERTO e ERRADO (ou BRANCO, nunca é demais repetir). Continuam sendo 73 pontos em disputa. E continua a mesma distribuição de pontos entre as disciplinas. Destaca-se, de longe, o peso de História na fase do concurso para diplomata que mais elimina, tanto em termos absolutos quanto em termos relativos. Somando as questões de História do Brasil e História Mundial, são 22 de 73 pontos. Não menos do que 30% da nota na primeira etapa do certame.

Só não vale distribuir o seu tempo de estudo de cada disciplina a partir exclusivamente desse critério. Afinal, os pontos que você obtiver nas questões objetivas do concurso serão indispensáveis para você passar, mas absolutamente indiferentes na definição da sua classificação final, que depende do seu resultado nas provas discursivas.

 

EXTRA: Gravação da “live” sobre o Edital do CACD 2019 (profs. Luigi Bonafé, Marcello Bolzan, Thiago Rocha e Felipe Estre)

 

PS: Texto ainda em construção, para dar conta de todos os detalhes mais importantes do novo Edital da nova banca e de como tudo isso afeta sua preparação.
Volte daqui a pouco que o conteúdo está sendo atualizado em tempo real

 

 

Sobre o autor: Luigi Bonafé - aprendacom@luigibonafe.com

Eu sou um professor de História apaixonado pelo desafio de redescobrir o magistério e desvendar a banca do CACD a cada ano. Desde 2007 dou aulas especificamente para quem quer ser diplomata. De lá pra cá, as provas do concurso mudaram muito, e os candidatos também. Como professor, eu fui mudando junto. Desde 2015 passei a lecionar nos cursos teóricos extensivos do IDEG, que ajudaram a revolucionar os fundamentos da preparação para o concurso de diplomata. Desde 2016, em plataforma própria e independente de cursinhos, criei um método de preparação para as provas discursivas de História do Brasil do CACD. E esse método foi aplicado pelos 3 candidatos que tiraram as notas mais altas das provas discursivas de HB em 3 anos seguidos: 2016, 2017 e 2018. Deixa eu te contar um pouco mais dessa história...

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